Mortes por chuvas no Grande Recife chegam a 107 e tragédia iguala total de vítimas da cheia de 1975

Na década de 70, enchente inundou 80% do Recife. Entretanto, em 1966, Pernambuco teve um desastre com um número ainda maior de óbitos: 175 pessoas perderam a vida devido a uma enchente na capital.

A confirmação da 107ª morte por causa das chuvas no Grande Recife igualou a tragédia deste ano ao número de vítimas da cheia de 1975 , quando também foram registrados 107 óbitos. Ainda assim, o maior desastre ocorrido em Pernambuco continua sendo a enchente de 30 de maio de 1966, na qual 175 pessoas perderam a vida.

Na tarde desta quarta-feira (1º), foi encontrado um corpo no local onde uma barreira deslizou na Vila dos Milagres, na Zona Oeste do Recife . Essa vítima ainda não entrou nas estatísticas oficiais, já que o balanço mais recente do governo do estado, divulgado às 11h, trazia o registro de 106 mortes.

Além desse número de óbitos, o temporal deste ano deixou mais de 6 mil pessoas desabrigadas. Essa tragédia já é considerada o maior desastre do século 21 em Pernambuco.

Buscas por pessoas soterradas em deslizamento no bairro do Areeiro, em Camaragibe, no Grande Recife — Foto: Danielle Fonseca/TV Globo

A conhecida cheia de 1975 ocorreu em julho, no pico da temporada chuvosa, enquanto o desastre deste ano aconteceu no início desse período de chuvas, em maio.

Nas maiores cheias do século passado, tanto a de 1966 quanto a de 1975, o Rio Capibaribe transbordou. Segundo historiadores, a maioria das vítimas morreu, principalmente, por afogamento, por problemas cardíacos e por contaminação de água.

Nas maiores cheias do século passado, tanto a de 1966 quanto a de 1975, o Rio Capibaribe transbordou. Segundo historiadores, a maioria das vítimas morreu, principalmente, por afogamento, por problemas cardíacos e por contaminação de água.

De acordo com o historiador e jornalista Leonardo Dantas, que fez parte da cobertura da cheia de 1966 quando trabalhava no “Jornal do Commercio”, os corpos eram tantos que houve dificuldade para enterrar os mortos.

“A cheia de 1966 me pegou, assim como a de 1975. Meu chefe me mandou procurar o número de mortes e foi muito difícil. Naquela época, o que aconteceu foi inundação do Capibaribe, mas não houve problemas nas barreiras. O pessoal que estava nos morros estava seguro, mas tinha bem menos gente que hoje em dia. Dom Hélder Câmara chegou a montar a Operação Esperança [que atuava em apoio a populações vulneráveis]”, afirmou Leonardo.

Cheia de 1975

A enchente histórica de 1975 deixou grande parte do Recife submersa e, 47 anos depois, ainda faz parte do imaginário popular recifense. Na época, a capital teve todos os serviços paralisados, mais da metade da cidade ficou sem energia elétrica e 80% do território acabou alagado.

Foi no dia 17 de julho, uma quinta-feira, que a cheia passou devastando os principais bairros do Recife. O Rio Capibaribe transbordou e 25 municípios banhados por ele foram atingidos, segundo os arquivos da Fundação Joaquim Nabuco.

Avenida Agamenon Magalhães, no Centro do Recife, durante a cheia de 1975 — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Avenida Agamenon Magalhães, no Centro do Recife, durante a cheia de 1975 — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Em 2022, em uma semana, entre o dia 25 de maio e esta quarta-feira (1º), houve mais de 100 mortos em deslizamentos. Ao menos cinco pessoas foram levadas por enxurradas. Também houve, ao menos, uma pessoa morta por choque elétrico numa área alagada.

Segundo o professor e pesquisador do programa de pós-graduação em Geografia da da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Osvaldo Girão, os desastres que ocorrem por questões climáticas precisam de políticas públicas para serem evitados.

“É uma das maiores tragédias de Pernambuco. E olhe que ainda estamos na metade do período chuvoso. Essas Ondas de Leste devem perdurar durante junho. Cabe aos gestores tentar minimizar os estragos. Mas isso sempre ocorreu, porque falta planejamento e gestão ambiental para evitar”, disse Osvaldo.

Busca por desaparecidos em deslizamento de barreira na Vila dos Milagres, no Recife — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

Busca por desaparecidos em deslizamento de barreira na Vila dos Milagres, no Recife — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

O professor Hernande Pereira da Silva, coordenador do Instituto para a Redução de Risco e Desastre de Pernambuco (IRRD), considera que há um conjunto de fatores que contribuem para essas tragédias em Pernambuco.

“O primeiro ponto que deve ser destacado é uma política habitacional adequada para atender esses moradores, atender as populações de baixa renda que têm muita dificuldade de encontrar um lugar para morar e se estabelecer”, afirmou Hernande.

Ele também declarou que “falta agilidade e uma determinação da gestão pública” para resolver a questão habitacional, com muito planejamento, tirando as populações de margens de rios e de encostas.

“Nós sabemos que existe um déficit habitacional, mas é um déficit que precisa ser executado com a maior rapidez possível, porque, senão, todo ano nós vamos ter esse problema, vamos pensar e ficar na roleta russa. ‘2023 está chegando com as chuvas, quem é que vai morrer agora? Quem é a bola da vez?’. A gente vai ficar nessa ansiedade”, contou Hernande.

Casa interditada em barreira em Jardim Monte Verde, no limite entre o Recife e Jaboatão — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

Casa interditada em barreira em Jardim Monte Verde, no limite entre o Recife e Jaboatão — Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

Segundo Osvaldo Girão, o adensamento populacional nas regiões de morro também contribui para os desastres. Essa maior concentração, segundo ele, ocorre desde a década de 1940, quando populações mais pobres, que moravam em mocambos nas planícies, foram retiradas e “jogadas” para os morros.

“Temos, em Pernambuco, um déficit habitacional de quase 70 mil residências. A ausência do estado nessas áreas de morro faz com que, gradativamente, a população se adense. É uma consequência da ausência de políticas habitacionais. Agora, por exemplo, a população de áreas de risco saiu, mas não tem onde ficar. Quando houver o período seco, voltam para as casas porque, momentaneamente, não há perigo”, explicou.

G1

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